PROJETO ILHAS DO RIO LANÇA PRIMEIRO GUIA DE MERGULHO E DE BIODIVERSIDADE MARINHA DO MONA CAGARRAS E OUTRAS ILHAS CARIOCAS

Publicado em: 26/12/2019 emDestaque

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Biodiversidade marinha

Obra inédita e pioneira destaca 10 pontos para a prática do mergulho e mais de 300 espécies encontradas na região.

Após quase uma década de pesquisas com o patrocínio da Petrobras, o Projeto Ilhas do Rio lança sua terceira obra científica sobre o Monumento Natural das Ilhas Cagarras (MoNa Cagarras) e outras ilhas do litoral carioca. Em suas 360 páginas, o “Guia de Biodiversidade Marinha e Mergulho das Ilhas do Rio” traz fotos exclusivas, mapas, dados, curiosidades e dicas nunca antes publicadas para a prática do mergulho e para quem quiser obter informações detalhadas sobre o patrimônio genético, paisagístico e histórico da região. Editado pelo Museu Nacional, o guia bilíngue (português e inglês), com tiragem limitada, tem distribuição gratuita e será enviado para instituições de história natural do mundo inteiro. Também poderá ser baixado em PDF no site do Projeto Ilhas do Rio, garantindo assim a democratização do acesso ao conhecimento científico para um público amplo, dentro e fora do país.

O guia, escrito com a colaboração de 19 autores e instituições do Rio de Janeiro e São Paulo, reúne uma parcela do rico banco de dados e imagens (cerca de 20 mil fotografias submarinas) obtido pelo Projeto Ilhas do Rio desde 2011, apresentando uma série de registros inéditos da vida marinha, incluindo algas, invertebrados, peixes, aves e cetáceos, como também características e peculiaridades dos ambientes onde essa rica biodiversidade se desenvolve. Além das seis ilhas que compõe o MoNa Cagarras – Palmas, Cagarra, Redonda, Comprida, Filhote da Cagarra e Filhote da Redonda – a publicação abrange mais quatro localizações: ilhas Rasa e Cotunduba e os Arquipélagos das Tijucas e Maricás.

As fotografias trazem identificação taxonômica e o nome popular das centenas de espécies, além de detalhes como fases de vida e colorações distintas entre machos e fêmeas. Também são apresentadas importantes interações ecológicas registradas nesses ecossistemas insulares. 

Tartarugas verdes (Chelonia mydas) são muito comuns nos mergulhos na Ilha Comprida, dentro do Monumento Natural das Ilhas Cagarras.
Foto: Áthila Bertoncini

BIODIVERSIDADE – Ao todo, a obra destaca 302 espécies marinhas (17 algas, 158 invertebrados, 116 peixes, 5 aves e 6 cetáceos) comuns, raras, endêmicas, ameaçadas de extinção e com valor econômico, identificadas a partir de pesquisas científicas realizadas pelo Projeto Ilhas do Rio entre 2011 e 2019, em colaboração com diversos pesquisadores especialistas de diferentes instituições. Os grandes grupos da flora e fauna marinhas são apresentados em ordem evolutiva, acompanhados de um texto introdutório para Algas, Invertebrados Bentônicos (Esponjas, Cnidários, Crustáceos, Moluscos, Briozoários, Equinodermos e Ascídias), Peixes, Aves e Cetáceos. Dentro de cada um desses grupos, as espécies são divididas em classes, ordens ou famílias e gêneros, e apresentadas em ordem alfabética de maneira prática para a busca de leitores não especialistas. 

Entre algumas descobertas e curiosidades está a esponja-carioca Latrunculia janeirensis, uma das três espécies de esponjas-marinhas que constam na categoria Vulnerável do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, publicado pelo ICMBio em 2018. É considerada uma espécie rara e endêmica do Rio de Janeiro, conhecida das Ilhas Redonda e Rasa, entre 15 e 30m de profundidade, difícil de ser visualizada no fundo pela sua coloração marrom-esverdeada. Outra esponja marinha interessante é a Petromica citrina, ou esponja-dourada, que tem sido estuda para o desenvolvimento de novos medicamentos e se revelado promissora como um potencial antibiótico no combate de bactérias resistentes a alguns medicamentos atuais. Nesse sentido, as Ilhas Cagarras tem sido uma importante fonte de material para as pesquisas desenvolvidas na UFRJ, por exemplo.

Polvo-comum (Octopus vulgaris).
Foto: Áthila Bertoncini

De alto valor econômico dentro da atividade pesqueira, o polvo Octopus vulgaris é outra espécie comum da região. Apesar da pesca ser proibida nos limites do Monumento Natural das Ilhas Cagarras, essa Unidade de Conservação tem o potencial de contribuir para a manutenção dos estoques pesqueiros no exterior da área protegida, já que funciona como uma área de reprodução e criação importante para muitas espécies exploradas comercialmente. O livro apresenta ainda espécies potencialmente perigosas para os mergulhadores, como o ouriço-do-mar-gigante (Diadema antillarum) que, apesar de rara nas ilhas do litoral carioca, pode causar ferimentos ao contato direto com seus espinhos de aproximadamente 30 cm de comprimento. 

Grande âncora almirantado na proa do naufrágio Buenos Aires, um dos pontos de mergulho abordados no Guia de Biodiversidade Marinha e Mergulho das Ilhas do Rio.
Foto: Áthila Bertoncini.

MERGULHO – o guia traz 10 pontos de mergulho selecionados dentre uma ampla gama de opções, contemplando ilhas de dentro e fora do MoNa Cagarras,  incluindo os limites geográficos da malha amostral do Projeto Ilhas do Rio. Traz informações sobre o deslocamento até as ilhas, a partir da entrada da Baía de Guanabara, a localização dos pontos de mergulho, indicação da profundidade local, além de dicas sobre fauna e flora específicas. Ícones sobre a qualidade do mergulho, formação do fundo, curiosidades, nível de experiência pessoal, visibilidade da água e intensidade das correntes compõem as informações dos mergulhos.

Só na Ilha Rasa há três pontos com diferentes níveis de dificuldade, entre eles, o Naufrágio Buenos Aires, vapor alemão naufragado em 1890, indicado para mergulhadores mais experientes. Para os iniciantes, a dica é a grande caldeira do Moreno, navio francês que repousa nas Ilhas Maricás desde 1874. Na Ilha Cagarra, o melhor ponto é o canal (face sul) com nível de dificuldade média, onde, com sorte, é possível ver a esponja-dourada citada anteriormente. Na face Norte da Ilha Redonda, onde em geral possui as melhores condições para a prática, vale a pena ficar de olho nas cores vibrantes da garoupinha-língua-de-lixa (Pronotogrammus martinicensis), vista no fundo da ilha.

Pertinho dali, na Ilha Comprida (enseada Norte), é comum deparar-se com as tartarugas verdes (Chelonia mydas), além do ouriço-do-mar-gigante (Diadema antillarum), espécie rara no nosso litoral, com seus espinhos de 30 cm. Para os olhos mais atentos, a Ilha Pontuda, pertencente ao Arquipélago das Tijucas, abriga o pequeno peixe linha-azul (Ptereleotris randalli) e a raia-borboleta (Gymnura altavela), ambos nem sempre vistos com facilidade, porque tem o hábito de se enterrar na areia.

“Ricamente ilustrado por mapas, croquis e imagens, o guia preenche uma lacuna de informações básicas para o desenvolvimento sustentável dessa atividade que congrega esporte, lazer, pesquisa e renda. Tudo isso visa potencializar a experiência de cada visitante e estimular o interesse daqueles que, mesmo de fora da água, admiram as paisagens naturais e a biodiversidade marinha”, diz Fernando Moraes, pesquisador do projeto e um dos editores da publicação.