Por Aline Aguiar, Cientista-Chefe do Ilhas do Rio e Hope Spot Champion da Mission Blue
Já se passaram cinco anos desde que as Ilhas Cagarras e Águas do Entorno foram nomeadas Hope Spot da Mission Blue. Como Hope Spot Champions, nosso objetivo é dar visibilidade à rica biodiversidade marinha do Rio de Janeiro, apesar dos intensos impactos humanos sobre esse litoral metropolitano tão movimentado, e defender uma maior proteção.
É claro que muitos outros ecossistemas marinhos do Brasil, até mais biodiversos e preservados, poderiam merecer esse reconhecimento, sem dúvida. Às vezes nos perguntam por que um lugar urbano como as Ilhas Cagarras foi escolhido como Hope Spot. A resposta é simples: a esperança também vive onde a natureza persiste, contra todas as probabilidades.
Localizadas a apenas cinco quilômetros da Praia de Ipanema, as Ilhas Cagarras e suas águas do entorno enfrentam múltiplas pressões, incluindo poluição marinha, pesca fantasma e pesca insustentável ou ilegal. Ainda assim, esse sistema insular é um refúgio de biodiversidade, que abriga centenas de espécies, incluindo espécies raras e endêmicas. Tartarugas-verdes jovens e diversas espécies de peixes e invertebrados habitam os costões rochosos das ilhas, baleias-jubarte usam a área como corredor migratório durante sua temporada reprodutiva e o local também abriga um dos maiores ninhais de fragatas do Atlântico Sul.


Mergulhando mais fundo na ciência
Há mais de 15 anos, o Ilhas do Rio trabalha para fornecer aos órgãos tomadores de decisão pesquisas e dados de monitoramento de longo prazo para proteger as ilhas do Rio de Janeiro. Em 2024, começamos um novo diagnóstico socioeconômico, um inventário da biodiversidade marinha e um levantamento batimétrico nas ilhas de Palmas e das Peças, mais a oeste da cidade, em uma área mais selvagem. Sim, o Rio ainda tem lugares assim! Esse trabalho foi possível graças ao apoio da Oceans 5 e da Mission Blue, em parceria com a Rolex e sua Iniciativa Perpetual Planet, o que também fortaleceu os esforços de advocacy do Ilhas do Rio junto aos órgãos ambientais locais.
Nossa pesquisa revelou que esses costões rochosos funcionam como berçários vitais para espécies de peixes-alvo e ameaçadas, incluindo garoupas, que coexistem com o ecoturismo local, as atividades esportivas e a pesca artesanal tradicional. Mas nem tudo são flores, já que práticas não regulamentadas, especialmente a pesca industrial, continuam a representar uma ameaça à biodiversidade local.


Transformando pesquisa em ação
Esses dados inéditos sobre a sociobiodiversidade local embasaram a proposta científica do Ilhas do Rio para uma nova Área Marinha Protegida (AMP) quando a Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro (SEAS) e o Instituto Estadual do Ambiente (INEA), com apoio da The Nature Conservancy, abriram uma chamada para um estudo técnico em meados de 2025. E adivinha? Em uma grande vitória, os órgãos estaduais selecionaram exatamente os limites do Hope Spot Ilhas Cagarras e Águas do Entorno como área de estudo!
Ao longo de um processo de nove meses, nossa equipe combinou o Planejamento Espacial para a Conservação com amplas consultas às comunidades. Centenas de atores locais, incluindo pescadores tradicionais, operadores de turismo, ONGs e representantes do governo, participaram de audiências públicas para dar forma à proposta da AMP, reforçando o caráter participativo do processo.

Dra. Aline Aguiar apresentando o estudo técnico na primeira audiência pública, em março de 2026. Foto de Caio Salles.

Em 9 de setembro, SEAS-INEA e Ilhas do Rio apresentaram o estudo técnico e a proposta da AMP em audiência pública. A proposta agora avança pelos canais oficiais do governo rumo à sua criação formal.
A AMP proposta se chama “Urupirá”, o mesmo nome que os povos indígenas usavam no passado para uma das ilhas locais, um termo que significa “cesto de peixes”. A proposta considera múltiplos usos da área compatíveis com a conservação da biodiversidade marinha, especialmente quando devidamente regulamentados, incluindo a pesca tradicional local e o turismo sustentável. Assim, a proposta de AMP se enquadra no grupo de “Uso Sustentável” e na categoria “Reserva de Desenvolvimento Sustentável” (RDS). Ela abrange 3.000 hectares, englobando praias, ilhas, recifes rochosos e águas costeiras que se estendem até uma milha náutica a partir dos bairros continentais de Barra de Guaratiba, Grumari e Recreio dos Bandeirantes.


Os principais objetivos da RDS Urupirá incluem: proteger os berçários onde os peixes se reproduzem e crescem; garantir os direitos e as tradições dos pescadores artesanais locais; fortalecer a cultura local, valorizando os modos de vida tradicionais; incentivar o ecoturismo e o turismo de base comunitária para gerar empregos; e combater a pesca ilegal, os crimes ambientais e os resíduos do turismo desordenado.


Infelizmente, as pressões políticas continuam, sobretudo por parte da pesca comercial, que busca acesso para práticas mais danosas, como a pesca de cerco para capturar sardinha viva usada como isca na pesca do atum. Petrechos não utilizados pelos pescadores tradicionais locais precisarão de uma análise mais aprofundada durante a elaboração do Plano de Manejo da AMP, por exemplo. Ou seja, nosso trabalho como Champions do Hope Spot está longe de terminar. Continuaremos apoiando os órgãos ambientais e as comunidades locais para garantir que a AMP seja oficialmente decretada e gerida de forma efetiva, cumprindo assim seus objetivos.
Abrindo caminho para o primeiro Corredor Azul do Brasil
Nossa pesquisa também avaliou a conectividade ecológica em toda a região do Hope Spot. A equipe do Ilhas do Rio integrou dados de monitoramento de longo prazo coletados desde 2011 a observações de ciência cidadã sobre a ocorrência de baleias-jubarte no Rio de Janeiro durante sua migração de outono-inverno rumo à sua principal área de reprodução, no Nordeste do Brasil.
As águas metropolitanas do Rio de Janeiro podem ser muito desafiadoras para as baleias-jubarte durante esse período migratório crítico, especialmente por causa de possíveis ameaças como colisões com embarcações, emalhes, poluição sonora e da água e o crescimento das atividades de observação de baleias.
Nossos resultados embasaram o desenho de um corredor de AMPs abrangendo 167.579 hectares, que poderia ser o primeiro corredor azul estabelecido em águas brasileiras. O reconhecimento do Corredor Ecológico Marinho confirmaria a importância das conexões entre ecossistemas e Áreas Protegidas locais para várias espécies, em particular as baleias-jubarte. No entanto, para estabelecê-lo de forma efetiva, é necessário incentivar estudos aprofundados para construir uma base de conhecimento multissetorial para a futura gestão do uso dos recursos.


Um motivo de esperança
Parabenizamos a SEAS e o INEA por darem esse passo crucial para proteger a biodiversidade marinha e as comunidades tradicionais costeiras do Rio de Janeiro. Também ficamos felizes pela designação do Hope Spot das Ilhas Cagarras e Águas do entorno ter servido como um poderoso catalisador, atraindo atenção, gerando pesquisa científica e inspirando ação. Isso não é um motivo de esperança?
Para conhecer o estudo técnico completo e a cartilha educativa, acesse https://ilhasdorio.org.br/urupira-ciencia-e-participacao-para-proteger-o-futuro-do-mar/
A Iniciativa Ilhas do Rio é uma realização do Instituto Mar Adentro, com AIEP e Regia como Mantenedores e UBS e Corona como Patrocinadores Master.
Dra. Aline Aguiar é bióloga marinha, doutora em Ecologia, com ampla experiência em ecossistemas marinhos e insulares tropicais. Defensora da saúde do oceano ao longo de toda a vida, seu trabalho se concentra em promover e expandir as Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) para construir resiliência de longo prazo para o oceano. Como Fundadora e Cientista-Chefe do Ilhas do Rio, ela lidera importantes ações de conservação em campo no Brasil e coordenou o estudo das propostas da RDS Urupirá e do Corredor Ecológico. Ela atua com orgulho como Champion do Hope Spot das Ilhas Cagarras e Águas do Entorno, da Mission Blue.