Mesma tartaruga é encontrada nas Ilhas Cagarras pelo sexto ano consecutivo

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Vista por 50 vezes desde 2020, tartaruga-verde cresceu mais de 6 cm, expulsou uma rival do seu território e deve virar símbolo de campanha para financiar a pesquisa nas ilhas cariocas

Ela não tem chip, não tem coleira e ainda não tem nome, mas já é a moradora mais assídua das águas cariocas. A tartaruga marinha catalogada como TC013, chamada de T13 pela equipe do Ilhas do Rio, foi avistada pela primeira vez em setembro de 2020 nos costões da Ilha Comprida, no Monumento Natural das Ilhas Cagarras (MONA Cagarras). Desde então, os pesquisadores a reencontraram em todas as temporadas, seis anos seguidos de fidelidade ao mesmo pedaço de mar, com mais de 50 reavistagens registradas até o dia 19 de agosto de 2026,quando tiveram o encontro mais recente.

A relação de longo prazo está documentada no relatório anual da pesquisa de tartarugas marinhas do Ilhas do Rio, referente a julho de 2025 a junho de 2026, recém-concluído. A equipe acompanha a T13 por meio da fotoidentificação, técnica que reconhece cada indivíduo pelo desenho único das placas queratinizadas da cabeça, uma espécie de “impressão digital” que dispensa a captura do animal.

Em seis anos, a T13 cresceu diante dos olhos dos pesquisadores. Quando foi medida pela primeira vez, em abril de 2022, seu casco tinha 36 centímetros de comprimento. Na última medição, em setembro de 2025, já estava com 42 centímetros, um ganho de 6 cm, expressivo para uma espécie de crescimento lento. Ela também mostrou ter personalidade: em novembro de 2025, a equipe filmou uma disputa territorial na qual a T13 expulsou uma tartaruga recém-chegada, a TC172, com mordidas no casco. A rival não foi mais vista no local desde então.

A T13 frequenta uma área de alimentação batizada pela equipe de “Restaurante”, na face norte da Ilha Comprida, onde encontra seu alimento preferido, as algas vermelhas, e descansa nas proximidades. O comportamento da moradora ilustra o achado central da pesquisa: as tartarugas marinhas das ilhas do Rio são fiéis ao seu território. Dos 178 indivíduos catalogados desde 2020, 84 apresentaram comportamento de residência e apenas um foi registrado em duas ilhas diferentes, o que indica fidelidade local alta. A tartaruga T13, por exemplo, é encontrada descansando sempre no mesmo local, um fundo cercado de pedras onde ela se encaixa e se sente protegida para tirar seus longos cochilos na Ilha Comprida.

Os números do sexto ano de monitoramento reforçam a importância das ilhas como área de alimentação e descanso: foram 16 saídas de campo e 32 mergulhos, com 44 tartarugas avistadas. A grande maioria (39) foram da espécie Chelonia mydas, popularmente conhecida como tartaruga-verde. Outras cinco avistagens foram de tartarugas-de-pente (Eretmochelysimbricata ). Além da T13, os recordistas de permanência são TC005 e TC007, na Ilha Comprida, com 2.100 dias de residência, cerca de 5 anos e 9 meses, e 11 avistagens cada.

A pesquisa também registra os perigos que essas moradoras enfrentam. No MONA Cagarras, petrechos de pesca perdidos e lixo são as maiores ameaças; no Arquipélago das Tijucas, somam-se as embarcações, com risco de atropelamento. Em 2024, a equipe resgatou a tartaruga TC053, que tinha um anzol espetado na nadadeira; após a retirada do petrecho, o animal foi devolvido ao mar e reavistado duas vezes, saudável, escolhendo permanecer na mesma ilha. Já a TC041 foi registrada com marcas de hélice no casco, indício de colisão com embarcação.

“O monitoramento de médio e longo prazo da biodiversidade é fundamental para entendermos o que acontece com essas espécies ao longo do tempo. Esse acompanhamento também permite observar a interação dos animais com os resíduos e outras ameaças já identificadas na unidade de conservação, gerando informações importantes para orientar as ações de gestão e conservação”, afirma Tatiana Ribeiro, do ICMBio, Chefe do MONA Cagarras.

O contexto é de esperança, mas exige vigilância: em outubro de 2025, a tartaruga-verde saiu da lista de espécies ameaçadas da IUCN, passando à categoria “pouco preocupante” — um marco do esforço global de conservação. No Brasil, porém, a espécie segue classificada como “quase ameaçada” (Portaria MMA nº 148/2022), e a continuidade das pesquisas e esforços de conservação é essencial para que a recuperação se sustente.

“Encontrar a mesma tartaruga ano após ano, no mesmo costão, é a prova de como estas ilhas são importantes para elas. A T13, é um indivíduo com alta fidelidade a uma área de uso pequena, tendo em vista que são animais altamente migratórios, Isso nos permite acompanhar o crescimento, comportamento e saúde de um indivíduo por anos, um privilégio e uma história que merece ser contada.”, diz a Dra. Suzana Guimarães, coordenadora de pesquisas sobre as tartarugas do Ilhas do Rio.

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